Hoje li dois textos que tratam de ideias totalmente distintas, mas que me fizeram refletir sobre o mesmo assunto. O primeiro é um artigo do blog do Eliton Tomasi, que trata da indústria músical nesses tempos de “crise mundial” pós MP3. Defende que a verdadeira forma de expressão artística não pode ser conectada ao desejo de lucro, pois a obra não pertence ao artista, sendo um patrimônio da humanidade. Assim, o natural é que a música seja gratuita. O que está errado é cobrar por ela, e só existe “crise da indústria fonográfica” porque esse modelo se esgotou por conta da revolução tecnológica da qual o mp3 é – apenas – a ponta do iceberg.
O outro artigo é um texto do B.Piropo, especialista em informática e colunista de diversos jornais. Acompanho seu trabalho desde que comprei meu primeiro microcomputador, um MSX com incríveis 8 kB de memória. Na época ele escrevia no jornal "O Globo", mas hoje tem um site muito interessante, que reúne tudo o que ele escreveu. Pois lá há uma série de artigos sobre Nikola Tesla, um dos maiores cientistas que a humanidade já produziu. Também é um dos mais injustiçados, pois não foi reconhecido nem mesmo depois de morto. Foi o verdadeiro inventor do rádio, mas quem ganhou o Prêmio Nobel e os livros didáticos foi o italiano Marconi.
Uma das ideias de Tesla era que a transmissão de eletricidade fosse feita sem cabos. “Wireless”, na linguagem moderna. Ele inventou um dispositivo para isso, que aumenta a tensão elétrica em milhares de vezes, permitindo que raios e centelhas quebrem a resistência do ar e possam servir para alimentar aparelhos situados a quilômetros de distância. Esse fenômeno é citado em uma cena do filme “O Grande Truque” (“The Prestige”, no original), em que Tesla é interpretado por David Bowie.
Quando Tesla procurou o banqueiro J.P.Morgan (o mesmo que fundou o banco que agora quase quebrou e desencadeou a “crise econômica mundial”) para que este financiasse a produção do seu invento, não conseguiu. Porque o capitalista se recusava a financiar algo que não lhe daria lucro. Pois se a transmissão de energia seria feita sem fio, qualquer um poderia utilizá-la e não se imaginava meios de cobrar por isso.
Não é igual ao MP3? Hoje a música é distribuída de graça, e isso é uma realidade, independente da vontade das gravadoras ou das disposições das leis de direito autoral.
O que muita gente não percebe é que não há nada de novo ou escandaloso nisso. A maioria da música que ouvimos não é por meio de consumo. Podemos ficar o dia inteiro ouvindo música e não gastar um centavo, basta ligar o rádio. Se estamos num evento e há música tocando, só com um cálculo bizarro poderíamos achar que estamos pagando por aquilo. O disco é um fenômeno recente na história. Só se tornou popular na década de 1960. Antes, o meio comum de ouvir música era o rádio (inventado por Tesla) e antes dele, a música ao vivo. E ninguém paga “por música” quando vai a um show. O ingresso é pelo conjunto do espetáculo, que não inclui só o salário dos músicos.
Agora temos a crise econômica mundial, desencadeada pela quebra do banco que se recusou a financiar a eletricidade gratuita. As gravadoras, que se recusam a permitir a distribuição gratuita de música, irão, irremediavelmente, se extinguir. O novo modelo que surgirá disso ninguém ainda previu, mas eu tenho um leve palpite: não haverá mais consumo de música. Ouvirei o que quiser e não pagarei por isso. O que não quer dizer que será de graça. Pois vou ter que comprar um tocador de MP3 ou um aparelho de som. E para baixar música terei que ter um microcomputador e uma conexão à internet. E na internet serei bombardeado por propaganda, e haverá formas de “jabá” eletrônico, em que arquivos de determinados artistas recerão mais “espaço” ou banda para download, ou serão anunciados nos melhores sites. Vou consumir outras coisas, mas não a música em si.
Para uma banda independente, como o Psychotic Eyes, talvez não faça a menor diferença. Pois não lucramos nada, no final das contas. Se não estivéssemos no metal por amor ao estilo e vontade de fazer música, já teríamos desistido. Mas talvez esse novo modelo seja mais justo, e isso será bom, pois haverá mais espaço para o fã decidir o que quer ouvir, sem o intermédio das grandes empresas capitalistas.
Estas, talvez nem a “crise mundial” as faça deixar de existir.
PS: não sou defensor do MP3. Acho lastimável a maneira como a atual geração ouve música. Baixa-se mais do que se consegue apreciar. Não há mais aquela coisa de ouvir um disco até riscar decorando o encarte. E são uma verdadeira porcaria essas caixinhas de computador e os headphones que vem com os tocadores. De que adianta gravar uma música com o Andy Sneap, no melhor estúdio do mundo, com uma guitarra caríssima de madeira da selva amazônica, se ela será tocada num alto falante feito de plástico de embalagem de remédio?